
O segundo post do ano é um belo poema de Drummond e o considero como o último da trilogia que aconteceu – por acaso – composta também pelos dois anteriores.
No último artigo do ano, citei frases da Bhagavad Gita cujo assunto principal girava em torno do dever de cada um e o cumprimento dele, de acordo com os parâmetros éticos universais. Questão primordial para Arjuna, a hesitação e as consequências do cumprimento dos deveres são causa de grande sofrimento.
No artigo seguinte – Senhor Krishna e o iogue perfeito – destaquei frases citadas por Iyengar em seu Light on the Yoga Sutras of Patanjali trocadas entre Sri Krishna e Arjuna na Bhagavad Gita que descrevem como deve se conduzir aquele que se diz iogue e a dificuldade inerente a tal condição.
Pelo tema do poema de Drummond, percebemos que as dúvidas de Arjuna são universais e se mantêm muito claras e vivas dentro de cada um de nós, iogues ou não: a hesitação nas ações a serem tomadas, a constante expectativa de sucesso em nossas tarefas, a conexão entre atos e situações vividas, a delegação da nossa responsabilidade perante a vida, a apatia perante as dificuldades cotidianas…(daí até se percebe um pouco a imensa importância da Bhagavad Gita e a justificativa de seu sucesso há tantos milhares de anos).
Segundo o poeta, a receita é estarmos acordados, de fato, no presente, executando as tarefas que nos são devidas, sem pensar no que passou ou ficar aguardando o futuro. No Yoga, a perseguição do momento presente, do instante atual é semente de tudo e é aí que a trilogia se fecha.
Que todos possam enxergar e despertar o Ano Novo que “cochila” dentro de cada um de nós…agora!
Receita de ano novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Fonte: Jornal de Poesia, online
(Poema de Carlos Drummond de Andrade, meu conterrâneo. Em homenagem ao ilustre poeta, a foto do nascer do Sol no Pico da Bandeira em Minas, pertinho da minha cidade…)