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No Yoga, vejo muitos praticantes, que se dizem intermediários ou avançados, não saberem o que estudam. Praticam até com bastante empenho sua modalidade, porém não a compreendem dentro de um contexto mais amplo, universal e milenar.
A questão que se apresenta, hoje em dia e de forma bastante frequente, é avaliar até que ponto a prática do Yoga no Ocidente se tornou simplesmente uma série de exercícios repetidos mecanicamente. Há críticas variadas sobre o comportamento deste imenso grupo de praticantes, em especial, sobre como não têm a mínima ideia das raízes e objetivos supremos da filosofia iogue.
Existe uma corrente evolucionista que prevê a transformação do Yoga ocidental para uma forma nova, que se moldará de maneira mais perfeita ao nosso olhar racional, cientificista e pragmático. Outros, mais pessimistas, acham que o consumismo irá acabar definitivamente com o Yoga e vamos nos tornar praticantes de modalidades variadas de algum Fitness Yoga qualquer.
Considero, contudo, que para onde quer que estejamos indo e para evitar a banalização da prática, o estudo das raízes do Yoga deve se tornar uma prioridade para aqueles que se auto-intitulam praticantes sérios, e obrigatório para todos os professores. Não acredito que possa haver uma evolução, ou mesmo uma permanência, verdadeira e valorosa no Ocidente sem que haja um mínimo embasamento teórico de parte significativa da comunidade.
Tópicos importantes, como os cinco que cito abaixo arbitrariamente, não são claros para a maioria da comunidade iogue.
- qual o objetivo supremo do Yoga afinal? Unir-se a um Ser Superior ou perceber que vivemos uma ilusão e já somos a própria perfeição?
- Vedanta e Yoga são filosofias compatíveis ou excludentes?
- os textos iogues são anteriores aos textos filosóficos gregos?
- como surgiu e qual a fundamentação do Hatha Yoga dentro da filosofia do Yoga?
- qual a correta ordem cronológica entre Vedas, Upanishads, Yoga Sutra de Patanjali, Mahabharata e Ramayana?
Se você sabe as respostas acima sem titubear, parabéns! Certamente, ou teve a benção de ter um mestre verdadeiro que o instruiu nos caminhos filosóficos e históricos ou teve o interesse intelectual de se aprofundar no assunto por conta própria através das mais variadas leituras.
No meu entendimento, da mesma forma que, na filosofia da arte, se discute se um louco é capaz de produzir arte, devemos questionar se, a partir de certo estágio, a prática do Yoga sem ser conscientemente fundamentada é Yoga.
Ilustro o nosso artigo com o “Manto da Apresentação” de Artur Bispo do Rosário e deixo com vocês a seguinte indagação: se o autor não tinha a consciência de que estava produzindo uma peça de arte, isto é, não tinha clareza sobre que bases construiu sua obra e qual o conceito desejava transmitir, o resultado final continua sendo arte?