
Nascer do Sol de Claude Monet
O hábito da leitura nos presenteia regularmente: ora com momentos de pura beleza, ora com novas ideias…e, menos frequentemente, com passagens esplêndidas justamente porque possuem a dificílima qualidade de nos apresentar conhecimentos inéditos envoltos em embalagens esteticamente surpreendentes.
Recentemente, o Universo conspirou a meu favor e me enviou um presentinho desses….
Outro dia, bem cedo pela manhã, aproveitando a calma das férias escolares, peguei meu livro de cabeceira e me encantei com um trecho onde se discutia o impacto do quadro “Nascer do Sol” de Claude Monet na cena cultural da época. Para os críticos do fim do século XIX, como poderia uma pintura representar, por exemplo, o mar e o céu se misturando, sem uma clara divisão entre eles? Céu é céu e mar é mar e pronto!
Mas todos concordamos também que, sob determinadas condições de luz, temos a nítida impressão de que os dois se encontram realmente e se misturam no horizonte. Essa impressão sensorial se dá no instante exatamente anterior àquele onde a mente racional se coloca inexorável e nos faz enxergar a distinção entre eles. Afinal, sabemos que não se tocam…nem no limite infinito. Que incrível o olhar dos impressionistas e, em especial, de Monet exposto nessa incrível obra de arte!
Mais tarde, no periódico de tecnologia e informática ComputerWorld,, li um artigo que apresentava 10 tecnologias que irão mudar nosso mundo na próxima década. Uma delas, instantaneamente, se conectou com o poético trecho do livro descrito acima.
Uma das previsões tecnológicas é a existência em 2020 de robôs fisicamente superiores aos seres humanos. Em 2025, o número de robôs superará o de seres humanos. Em 2032, os robôs serão mentalmente superiores a nós e, por fim, em 2035, poderão nos substituir perfeitamente na força de trabalho.
A notícia impressiona inclusive os mais céticos. Causa até um certo medo, não é?
Lembrando, no entanto, do quadro de Monet e do trecho do meu livro, imaginei um computador que pudesse ajustar seus periféricos de forma que eles pudessem registrar as impressões do meio ambiente sem que passasem por qualquer etapa racional e mental ou, no caso deles, por suas milhões de linhas de código. Sendo produtos máximos da racionalidade humana, simplesmente, não consegui concebê-los como sujeitos dessa ação.
Pela própria construção, os computadores não poderão se aproximar do questionamento Impressionista. Como eles poderão observar o seu próprio funcionamento? Como um software poderá se auto-observar por outra coisa que não um outro software? Seria um robô capaz de vivenciar um estágio incipiente de meditação? Imagino que não e me alegro com tal pensamento.
A lembrança da obra “O Nascer do Sol” de Claude Monet me trouxe um refrescante alento diante de situações futuras tão imprevisíveis.
Bem, enquanto as previsões não se realizam, vamos tocando nossas vidas na companhia de pré-históricos livros impressos os quais nos enchem de alegria simplesmente por estarmos vivos e capazes de descobrir a beleza escondida neste mundo…e nos chamam a apreciar sublimes auroras impressionistas…
Ah! Para os curiosos, o livro que estou lendo é “How Proust can change your life” de Alain de Botton. Pelo que pesquisei, há uma versão em português sob o título “Como Proust pode mudar a sua vida“. Ma-ra-vi-lho-so!