
Yoga Body: the origins of modern posture practice
Li, há algum tempo atrás, o livro “Yoga Body: the origins of modern posture practice” de Mark Singleton por causa da reação causada por ele dentro da comunidade iogue: alguns elogiando o trabalho, outros fazendo duras críticas a seus resultados.
O principal ponto defendido pelo autor é de que os indianos instilaram sua filosofia numa mistura de diferentes sistemas de ginástica criados na Europa a partir do fim do século XIX e início do século XX. Esses programas de exercícios teriam chegado à Índia através dos ingleses e se tornaram a base daquilo que praticamos hoje em dia e que ele denomina de Yoga Moderno.
Singleton defende que os mestres iogues, inclusive Krishnamacarya, teriam copiado, com ajustes e adaptações, as séries europeias e as transformado na prática de asanas. Nosso conhecido Surya Namaskar, por exemplo, seria uma invenção de suecos e não de indianos.
Outro ponto bastante importante na teoria de Singleton diz que o Yoga não saiu imaculado da Índia e foi se alterando e adquirindo seus aspectos mais físicos depois que atingiu o Ocidente. Essa ideia e suas modificações ocorreram dentro da comunidade indiana e, depois, alcançaram o resto do mundo.
Observações sobre o livro Yoga Body
Reconheço, antes de tudo, o empenho do autor nas pesquisas e a importância da significativa massa de dados históricos que ele disponibilizou. Porém, preciso levantar algumas questões.
Em relação à sua metodologia de trabalho, é muito importante destacar a dificuldade de ser fazer pesquisa na Índia com o olhar ocidental. A tradição hindu é primordialmente oral. Buscar provas escritas de todo o conhecimento indiano é uma tarefa impossível. O conhecimento passa de mestre para discípulo, seguindo linhagens milenares.
Até mesmo os textos escritos pressupõem uma certa familiaridade com a matéria. A primeira palavra dos Yoga Sutras de Patanjali, atha (agora), por exemplo, subentende que o que virá adiante é um assunto que se distingue dos demais sistemas filosóficos. Assim, Patanjali considera que seu leitor tenha algum conhecimento prévio de conceitos que ele, inúmeras vezes, assume como dados.
Além disso, como o professor Manouso Manos nos lembrou em seu último workshop, Vyasa, o grande e primeiro comentarista dos Yoga Sutras de Patanjali, menciona uma lista de asanas quando analisa os três sutras de Patanjali sobre esse assunto e a finaliza com uma palavra correspondente ao nosso “etc.”. É como se ele dissesse: “os asanas são esses e mais todos os outros que vocês já bem sabem e eu nem preciso listar aqui em detalhes.”
Assim sendo, não se pode deduzir que Patanjali era absolutamente contra a prática física ou que não havia prática física na Índia por ele ter escrito somente três sutras sobre o assunto. Ora, pode-se interpretar que esse assunto era de tal forma difundido entre eles que não havia necessidade sequer de mencioná-lo.
Afinal, a prática física leva à Iluminação?
A grande questão que se pretende responder no livro é: “Através das práticas físicas posso chegar à Iluminação?”
Singleton afirma que sim. Para o autor, o ramo físico do Yoga foi criado na própria Índia e não é um impedimento ao caminho espiritual, e acrescenta que o yoga moderno carece de uma orientação espiritual mais profunda, mas não constitui um caminho divergente.
Por fim, uma curiosidade, especialmente para os praticantes de Iyenga Yoga : BKS Iyengar emprestou sua biblioteca para que Singleton fizesse parte de sua pesquisa, porém se recusou a participar com seu depoimento.
Minha opinião final é de que vale a pena fazer uma leitura crítica do livro (em inglês somente), tanto pela ordem cronológica dos fatos e pelas informações históricas que ele organiza e lista em profusão, quanto para se manter atualizado sobre os temas em debate hoje no cenário mundial do Yoga.